TENDÊNCIAS/DEBATES
TERESA CRISTINA BRACHER e NELSON ASCHER
TERESA CRISTINA BRACHER e NELSON ASCHER
A impunidade de atropeladores é uma barbaridade nacional que banaliza mortes cruéis e evitáveis: há culpados por tais crimes cumprindo pena hoje? |
Gabriella Guerrero Pereira atropelou, em 23 de julho, Vitor Gurman, que morreu cinco dias depois.
Mas de uma entrevista sua, que poderia ser usada em cursos de direito, depreende-se que ela é que foi a vítima: do namorado, que bebeu demais, do carro, que, robusto, tem direção mole, do azar, pois Vitor passava por ali... Tão vítima do acaso quanto Vitor, ela estava "destruída" (embora não a ponto de aceitar qualquer culpa) e gostaria de "pegar o sofrimento (...) para carregar só comigo".
Econômica na responsabilidade, ela esbanja compaixão e dá a entender que, mesmo sem ser culpada pela destruição real, não figurada, de uma vida jovem, já foi punida por sua própria dor.
Em 5 de agosto, ela foi indiciada sob suspeita de homicídio com dolo eventual, e seu pai, Sergio Pereira, declarou: "Foi uma mera fatalidade, das que acontecem uma em mil". Além do desrespeito implícito no "mera", vê-se aqui a mesma mentalidade em operação: a violência no trânsito seria um fenômeno natural, como terremotos e tsunamis. Assim, numa cidade com taxas absurdas de mortes provocadas por motoristas irresponsáveis, o fator humano se evapora.
Ainda é normal, no Brasil, encarar como "mera fatalidade" o que em outros lugares é crime gravíssimo e, caso se conclua que Vitor Gurman foi vítima de um, é assim que isso deveria ser tratado, pois onde há crime deve haver punição.
Esse truísmo choca-se, porém, com uma cultura da cordialidade, irreverência e mais afeita ao perdão do que ao respeito às leis, uma cultura de coitadinhos vivos e de mortos à espera de justiça.
A impunidade dos atropeladores é uma barbaridade nacional que banaliza mortes cruéis e evitáveis.
Folha de São Paulo, dia 26/8.