sábado, 17 de setembro de 2011

Uma oportunidade de mudança



TENDÊNCIAS/DEBATES

TERESA CRISTINA BRACHER e NELSON ASCHER




A impunidade de atropeladores é uma barbaridade nacional que banaliza mortes cruéis e evitáveis: há culpados por tais crimes cumprindo pena hoje?





Gabriella Guerrero Pereira atropelou, em 23 de julho, Vitor Gurman, que morreu cinco dias depois.
Mas de uma entrevista sua, que poderia ser usada em cursos de direito, depreende-se que ela é que foi a vítima: do namorado, que bebeu demais, do carro, que, robusto, tem direção mole, do azar, pois Vitor passava por ali... Tão vítima do acaso quanto Vitor, ela estava "destruída" (embora não a ponto de aceitar qualquer culpa) e gostaria de "pegar o sofrimento (...) para carregar só comigo".
Econômica na responsabilidade, ela esbanja compaixão e dá a entender que, mesmo sem ser culpada pela destruição real, não figurada, de uma vida jovem, já foi punida por sua própria dor.
Em 5 de agosto, ela foi indiciada sob suspeita de homicídio com dolo eventual, e seu pai, Sergio Pereira, declarou: "Foi uma mera fatalidade, das que acontecem uma em mil". Além do desrespeito implícito no "mera", vê-se aqui a mesma mentalidade em operação: a violência no trânsito seria um fenômeno natural, como terremotos e tsunamis. Assim, numa cidade com taxas absurdas de mortes provocadas por motoristas irresponsáveis, o fator humano se evapora.
Ainda é normal, no Brasil, encarar como "mera fatalidade" o que em outros lugares é crime gravíssimo e, caso se conclua que Vitor Gurman foi vítima de um, é assim que isso deveria ser tratado, pois onde há crime deve haver punição.
Esse truísmo choca-se, porém, com uma cultura da cordialidade, irreverência e mais afeita ao perdão do que ao respeito às leis, uma cultura de coitadinhos vivos e de mortos à espera de justiça.
A impunidade dos atropeladores é uma barbaridade nacional que banaliza mortes cruéis e evitáveis.


Folha de São Paulo, dia 26/8.
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