Toda história de vida tem valor, basta lançarmos luz e darmos chance para que apareçam, para que brilhem. Cruzamos diariamente com histórias de vida incríveis, mas escondidas e encobertas pela falta de tempo ou de interesse, acabam por ser desperdiçadas.
Quem será essa mulher que cozinha para nossa família com tanto carinho? Que histórias de sua infância ela tem para contar? E essa mãe, que sempre encontro na porta da escola, o que me diria se eu perguntasse sobre o melhor dia de sua vida ou sobre a cena mais marcante que já presenciou? E se todos soubessem a criança de 6 anos que eu fui?
Ah, como a vida fica mais rica quando damos chance e tempo para as histórias de vida serem compartilhadas. É assim que os encontros acontecem, que a gente se sente vivo, humano, cheio de esperança.
O Fazendo Minha História existe para valorizar a história de cada criança e cada adolescente que estávivendo em um abrigo. Ouvir como ele percebe, sente, compreende o que viveu e o que está vivendo e ajudá-lo a ampliar sua consciência sobre sua história.
Cada um tem uma família, amigos, afetos, medos, desejos, projetos... Encontrar espaço dentro do abrigo para falar sobre isso tudo é um passo importante para a não institucionalização, para a preservação da identidade e para a promoção da autonomia. Sou único, sou determinado e constituído por minhas escolhas, por minha história. Entendemos que este processo traz em si uma oportunidade de quebra de ciclos familiares marcados por violência e negligência que tendem a se repetir, se não forem olhados, falados, elaborados.
Agora pensemos juntos: se a nós, mães, sobra pouco tempo para escutar nossos filhos com toda a atenção que merecem, imaginemos um educador de abrigo, que acolhe 20 crianças e adolescentes. Como encontrar tempo para essa escuta individualizada? Como conseguir registrar cada etapa de vida das crianças, conferindo a sua vida um valor que, de outro modo, pode ficar perdido, como se suas conquistas não fossem importantes. São sim, e queremos que saibam disso.
Não é tarefa fácil, mas nem tão difícil assim, se lembrarmo-nos do prazer que temos em ouvir e contar histórias, ainda mais as vividas, tão cheias de sentido.
Foi na mobilização de um voluntariado comprometido e bem capacitado que encontramos meios para que cada criança que está afastada de sua família tenha possa ser escutada. Cada colaborador vai a um dos mais de 120 abrigos parceiros e encontra-se com uma ou duas crianças semanalmente para contar histórias (de livros e de vida) e registrar a história única que cada um tem a trazer. Durante um ano, os encontros ocorrem e os colaboradores tem o suporte de nossa equipe técnica.
A idéia não é colecionar tragédias, registrar as violências em seus detalhes. Nada disso. A ideia é que possam trazer a sua versão da história, sob a ênfase da potência. Falar de violência para pensar como é bom ser protegido. Contar da miséria fortalecendo-se para uma vida com recursos.Descobrir o que foi bom em sua vida familiar e o que gostaria de fazer diferente.
Nenhuma história é só ruim, há sempre afetos, há aprendizados. Nenhuma criança é só carente, todas tem muita potência em si. Essa é nossa aposta. Esse é nosso trabalho. E fica aqui nosso convite: quer participar?
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