CONTOS DE FADA
Discute-se muito atualmente uma questão de grande importância para nós pais e educadores. Qual o valor dos contos-de-fadas na formação das crianças ?
Para alguns, o caráter simbólico destas histórias pode tornar-se prejudicial pois dificultam o acesso à realidade, constituindo-se até mesmo numa forma de alienação, impedindo a criança de lidar com o mundo real. Para outros estudiosos, estes contos são prejudiciais, pois fazem com que a criança se defronte com uma série de figuras e temas assustadores inadequados para sua faixa etária.
Em uma vertente contrária (na qual me incluo), os estudiosos vêem mais aspectos positivos e salientam outros elementos que validam sua posição.
Os contos-de-fadas são muito importantes para o desenvolvimento emocional das crianças porque através das histórias infantis, as crianças são capazes de se identificar com os personagens, expressar seus sentimentos, angústias, necessidades e resolver conflitos psicológicos de acordo com a fase do desenvolvimento que estão passando.
Assim como os contos, as cantigas de ninar trazem a tona questões humanas que todos devem elaborar como morte, separação e o desamparo. Segundo Radino (2003), "o que traumatiza as crianças não é o contato com os elementos esfaceláveis, mas o significado e a relevância que os adultos lhe dão". As crianças só temerão imagens assustadoras, quando os adultos insistirem no seu caráter assustador. Para o autor, mesmo parecendo terríveis, figuras como bruxas e ogros, por exemplo, podem acalmar a criança no acalanto, pois desvenda questões humanas que todos precisamos elaborar como a separação, a morte, o desamparo.
Grimm (1999) insiste no fato de que, ao censurar os contos de fadas, muitos adultos acham que estarão protegendo a criança de vivenciar situações que estes apresentam como o medo, a sexualidade, a inveja, o ódio, entre outros, porém isto não é verdadeiro. Esses sentimentos já estão presentes nas crianças, de forma fantasiada, desde muito cedo. A idéia de que o contato com tanta fantasia desorganiza, ao contrário do que se imagina, pode servir como fonte de elementos simbólicos para a própria organização mental. A fantasia facilita que a criança se projete na história, nos personagem e na paisagem. Quanto mais elementos realísticos a história tiver, menor a possibilidade da criança se projetar nela, pois com isto ela poderá engessar sua capacidade criativa.
Como já visto acima, o conto de fadas é um instrumento de trabalho muito importante para o desenvolvimento emocional da criança por vários motivos. Através das historias, as crianças se identificam facilmente com os problemas dos personagens e isto auxilia a criança a lidar com a ansiedade que está vivenciando e a até mesmo a superar obstáculos, favorecendo assim desenvolvimento da sua personalidade.
Através da fantasia, as crianças têm maior facilidade de compreensão, pois ela se aproxima mais da maneira como vêem o mundo, já que ainda são incapazes de compreender respostas realistas.
A estrutura dos contos-de-fadas corresponde às necessidades infantis (Radino, 2003). Geralmente, os contos se desenrolam num mundo da fantasia porem com personagens que se aproximam da realidade. Falam de heróis comuns, seus nomes são genéricos, como João e Maria. Os pais dos heróis também podem ser qualquer um de nós. Dessa forma, como diz Radino, "torna-se mais fácil uma identificação com esses personagens genéricos, que vivem situações cotidianas e que têm uma família comum, e não personagens sobre-humanos ou sobrenaturais.
De acordo com outros autores, os contos-de-fadas começam com uma maneira simples e partem de um problema ligado a realidade. A criança se depara com situações semelhantes à sua realidade interna. Buscando solucionar esses conflitos, aparecem situações mágicas. A narrativa termina com a volta a realidade, em que os heróis se casam ou retornam ao lar (Ressurreição, 2007).
Nos contos-de-fadas não há localização temporal, pois este pouco importa. Assim sendo, crianças e adultos dos contos de fadas não envelhecem, já que o tempo não existe.
Para Bettelheim, os contos-de-fadas se estruturam de forma com que a criança consiga estruturar também seus devaneios e assim direcionar melhor sua vida. Eles não iludem e sim, expõem as crianças às dificuldades fundamentais do homem. Além disso, aguçam a imaginação (Radino, 2003).
Levine pontua que os contos-de-fadas, em sua maioria nos trazem, a principio, a angustia de ruptura com o meio familiar no momento de passagem para o mundo adulto. O que salva o herói é o seu grau de amadurecimento. "A mensagem oculta é a de que precisamos de nossos pais, mas para crescer, temos de nos libertar da dependência deles (Ressureição, 2007).
Nos contos-de-fadas e nos mitos são ilustrados simbolicamente nossa história interna e nossos conflitos internos (como a rivalidade entre irmãos, por exemplo), sendo que o personagem principal somos nós mesmos (Postic, 1993). Através de uma linguagem fantástica, os contos procuram explicar a existência humana (Radino, 2003). Segundo Postic, a criança se identifica com o herói da história e capta significados a partir de seus interesses e necessidades momentâneas. Os contos mostram à criança muitas questões humanas que ela vivência, mas não consegue verbalizar. Eles dão forma a desejos da própria criança, aguçando a imaginação e favorecendo para seu processo de simbolização que, segundo a autora, é de grande importância para a sua inserção no mundo civilizado e na cultura...." os contos-de-fadas sugerem, de forma simbólica, como convém resolver os conflitos internos (Postic, 2003).
Texto elaborado por Gabriela Jens de Mello e Malu Montoro